O vírus e a imaginação

De repente, vejo-me numa cilada. Escrever para as crianças ou me preocupar com o vírus que passa na rua, desfilando e atacando todos nós? Seriam atitudes excludentes? Por que não posso escrever para as crianças e ao mesmo tempo preocupar-me com o vírus?

Talvez preocupar-me com o vírus dê a sensação de que quero combatê-lo, enquanto que imaginar e entrar no mundo infantil traga-me a sensação de estar buscando uma fuga de uma realidade que precisa ser combatida.

No entanto, o combate que conheço é pela palavra. Embora não seja nobre nem essencial neste momento de testes e criações de vacinas e raciocínios complexos sobre contágio, contaminação e curvas estatísticas, é com a palavra que posso tentar lutar.

E a palavra tem seu valor fundamental. O valor de organizar o pensamento. O valor de continuar alimentando a humanidade de nosso ser.

Enquanto o vírus nos mostra nossa fragilidade, a palavra pode dar algum alento, alguns momentos, por mais efêmeros, de profundidade, de lembrança do que podemos ser ou poderíamos ter sido.

Tudo isso me vem agora pela manhã, preso em casa, sem conhecimento técnico ou formação para ajudar na composição das vacinas, ou sem a imunidade que todos queríamos para ajudar quem precisa.

Por isso, continuamos com as palavras, com os versos. Que a imaginação bem alimentada não apenas transforme as horas em agradáveis momentos, mas nos conscientize de que somos humanos, todos frágeis, todos iguais, todos em perigo. E assim nos unamos de maneira inteligente para vencermos o vírus, este e tantos outros que já enfrentamos e enfrentaremos.

Você conhece crônica? Escrever crônica não é fácil. É um gênero de texto que exige uma certa intimidade com as palavras e um jeito especial de ver as coisas que acontecem ao nosso redor e, ainda, ter